Sábado, 17.10.09

 

Para ter asas, basta desejar,
mas não chega.
Asas de azul-cobalto num céu de chumbo
Asas de reflexos púrpura, iridescentes.
Rosários de penas descrentes,
rouco rugido de penas, silente.
Amarga, a rouca  consolação distante.
Só, a carícia de asas no vento.
Um terno assombro de rotas dementes.
Queremos as asas que nos prometeram,
Lambendo as feridas com o suor do tempo.


Corpo Estranho às 08:00 | link do post | comente

Segunda-feira, 05.10.09

Enquanto isso, espero por ela.

Terna como a casca das àrvores.



Corpo Estranho às 16:54 | link do post | comente

Mais cedo ou mais tarde voltariamos a encontrar-nos. Mas não sabia que trarias o cabelo cheio de estática. No ar. Roubava-te a dignidade.

Estava um mau dia para te encontrares. A ti e a mim. E a todas as gotas que  te dançavam pela cabeça fora. Havias de as sacudir, como fazem os cães. E deixar a lingua pender, arfando de satisfação.

Tentavas falar sem pausas, sem te engasgar. Mas as frases nasciam num ranger de carris, desafinadas.

Tentei olhar-te de frente e percebi que era a gravidade que te faltava. Flutuavas pela sala, inflada de gestos e de histórias. Como um balão colorido cheio de hélio.

Sei que um dia vou ser punido por isto. Por guardar assim o passado numa caixa de truques. Sei de cor as pragas de gafanhotos biblicos e as parábolas redentoras.

Só me resta aguardar pela tunica sebenta do velho profeta de barbas.

 



Corpo Estranho às 15:37 | link do post | comente

Sexta-feira, 18.09.09

 

Agarrou-lhe o braço, em asfixia.
Prendeu-lhe a carne, pele e gordura em pequenas pregas de onde aflorou uma flor de vermelhidão. Que gritava.
Chegou mesmo a cravar-lhe as unhas, deixando meias-luas onde todos os lobos do mundo uivavam. Num segundo, num estrépito. Num relâmpago de dor.
A vida suspensa naquela garra.
Era a única forma que tinha de amar.


Corpo Estranho às 19:53 | link do post | comente

 

Já os teus passos não me enganam. Desenhas-te levemente a carvão, para que o meu olhar não possa repousar sobre os teus pontos cardeais.
Um beijo transviado na brisa arrepia a suave penugem que cobre a tua pele. E, no entanto, o chão continua cravejado de beatas. São perdidos os passos e cegadas as órbitas. Despidas de ti e de mim. Vestidas de uma vontade que era desejo. Agora, gravidade. Os objectos em colisão.
O passeio diário pelo pátio na prisão da tua ausência. As moedas contadas para o telefone. Os embrulhos de papel pardo com um vago cheiro a canela. Já vazios. Como as promessas de um passado radioso.
Que fantasmas terás para me oferecer?
Agora que o medo se tornou num calafrio, tímido no arrepio da manhã. E que domei na arena os leões do espanto.
Agora que o amor é mais que um livro de histórias.


Corpo Estranho às 19:50 | link do post | comente

Sexta-feira, 07.08.09

 

Esqueceu-se de comprar tabaco, apesar de nunca ter fumado. Sentiu-lhe a falta. Ultimamente era assim. Sentia a falta de coisas que nunca tivera. Subia a colina empoeirada e rasgava a claridade numa faca. O vento na rua onde morava. Tentava vestir-se de si. A casa era arejada, ampla na sua pequenez e não lhe roubava movimentos. A cabeça à roda. A luta arrancada ao corpo e aos ossos. Inquieto, podia finalmente descansar. Repousar. Passava as mãos pela pele rarefeita, árida e tensa como a de um tambor. Não bater em retirada.


Corpo Estranho às 20:32 | link do post | comente

Terça-feira, 28.07.09

Todas as conversas telefónicas perdiam a magia passado o primeiro impacto. Tinha-a possuido. Sobretudo quando se afastara e o rosto dela lhe gritava um silêncio atroz de olhos vazios. Que o corpo desmentia. Ou vice-versa. Aí sim, sua para sempre.

Costumava dizer que só lhe restava a raiva. E entretinha-se a ranger os dentes, enquanto mexia os braços e as pernas frenéticamente. Já não era tempo para roer as cascas das àrvores, ou encher os bolsos de terra. De fato amarrotado e chapéu dramaticamente enfiado na cabeça, era como um pendulo, cuja sombra apontava as horas de uma qualquer estação de combóios poeirenta.

 



Corpo Estranho às 13:28 | link do post | comente

Terça-feira, 14.07.09

 

Se pudesses saborear o meu silêncio, não enchias mais a boca de palavras. Como um puto que rouba chocolates e os devora debaixo da mesa da sala. Ás mãos cheias. Os dedos pegajosos que se limpam a um trapo qualquer.
Sabes, é que hoje encontrei-me perdido em mim. E temo que nunca mais a gramática possa preencher o abismo que separa dois corpos.


Corpo Estranho às 22:08 | link do post | comente | ver comentários (1)

Domingo, 12.07.09

 

Sabes porque morreu a culpa solteira? Eu explico. Porque ninguém a suportava. Arrastava o seu balandrau de serapilheira húmida e empestava os cantos da casa. Sentava-se em frente ao espelho e arrancava dos cabelos pontas de arame ferrugento.
Engalanava-se em teias de aranha, a rainha do baile.
Conto-te este segredo numa carícia dura. Para que afastes o zumbido dos enxames.E deixes de empunhar cegamente o estandarte da dor.


Corpo Estranho às 21:27 | link do post | comente

Sexta-feira, 10.07.09

 

Quando me vires, estarei velho como o tempo. Isto é, sempre que me vires. Agora e ontem.
Eu sei que não entendes. O tempo é uma floresta de folha caduca onde os ciganos escondem as carroças. Madeira carunchosa que chia. Incha e desincha, como os corpos dos velhos. Os aros presos por arames. E o que os sustem é o vazio. Um punho fechado bem no centro. Calcificado. Ganhou raízes e musgo e limos que secaram ao sol de inverno. É daí que vem um vago cheiro a mofo. Quer dizer, a vida. Tem um vago cheiro a mofo.
Nunca fui de ninguém, nem estive em lado nenhum.


Corpo Estranho às 23:21 | link do post | comente

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